02 maio 2013

Trilha das Lágrimas, um capítulo vergonhoso da história dos EUA


Após a Guerrade 1812, com o fim da aliança entre os britânicos e os nativos americanos a leste do Rio Mississippi, assentadores brancos tornaram-se mais determinados a colonizar terras indígenas além do Mississippi.
Na década de 1830, o governo federal deportou forçadamente tribos nativas americanas do Sul do país para regiões menos férteis no Oeste. Durante a metade do século XIX, esta tendência de obrigar os nativos americanos a mudar-se de terras consideradas "valiosas" pelo governo federal, para regiões mais isoladas, continuou a ser implementada pelo governo federal.


Parque Estadual Trail of Tears (Trilha das Lágrimas) de Missouri era o local onde o nativos
em deslocamento passavam o inverno - Imagem UOL Viagem

Em 1830 o Congresso americano aprovou o Ato de Remoção Indígena, que autorizava o Presidente americano a negociar tratados que trocavam terras indígenas nos Estados do Leste americano por terras a oeste do Rio Mississippi. Em 1834, um território voltado especialmente para a alocação de diferentes grupos indígenas do Leste americano, foi criado. Este território, o Território Indígena, é o atual Estado americano de Oklahoma. No total, tribos nativas americanas assinaram 94 tratados cedendo milhares de quilômetros quadrados de terras ao governo dos Estados Unidos e do dia para a noite, milhares de homens e mulheres, das mais diferentes idades e culturas, se viram obrigados a realizar um deslocamento de mais de 1.500 quilômetros rumo a um futuro completamente incerto.
Entre o começo do século XVIII e os primeiros anos do XX, praticamente toda a posse das terras dos Estados Unidos foi transferida dos Índios para os brancos. Esse processo, ao longo da história, foi compreendido de duas formas: a primeira pressupõe que essa mudança se deu a partir de transações consensuais; a outra atribui o trâmite a uma conquista violenta. Entre 1828 e 1838, mais de 80 mil indígenas foram removidos do Leste para o Oeste.
A Trilha ou Caminho das Lágrimas foi o nome dado pelos nativos às viagens de recolocações ou migrações forçadas.

A referência à "Trilha das Lágrimas" foi retirada de uma mera entrevista, concedida por um dos chefes indígenas da tribo dos Choctaw ao jornal "Arkansas Gazette". A expressão entrou, vergonhosamente, para a história dos EUA, quando o “pele vermelha”, ao ser questionado sobre o processo de remoção de seu povo para a região de Little Rock, em conformidade à política imposta pelo governo norte-americano, respondeu que o deslocamento havia sido uma “trilha de lágrimas e morte”.

É sabido que o processo de expansão territorial dos Estados Unidos, especialmente o período correspondente à conquista do Oeste, no século XIX, foi marcado pela grande violência sofrida por populações indígenas que habitavam as regiões cobiçadas pelos brancos. Nesse contexto, a trilha a que o chefe Choctaw se referiu foi apenas um dos atos de extrema crueldade impingidos pelo governo federal, em nome da “democracia” desejada por aqueles que se consideravam superiores e com autoridade para cometer tais atrocidades.


Trilha das Lágrimas, índios Choctaw, EUA
Pintura Loisiana Indians Walking Alone a Bayou de Alfred Boisseau de 1846,
faz referência a remoção dos Choctaw - Imagem wikipedia

Foi um sofrimento brutal para os nativos e vários morreram durante as viagens e acampamentos. Estima-se que, da tribo Cherokee que tinha uma população de 15.000, vieram a falecer cerca de 4.000 índios.

Os Cherokees, tinham por direito a propriedade de terras no oeste da Carolina do Norte e da Geórgia devido a um tratado estabelecido em 1791, mas foram expulsos de suas terras quando uma facção Cherokee assinou o Tratado de New Echota, um ato que autorizava oficialmente a mudança forçada de todos os índios na região para terras no Oeste. Apesar de protestos dos Cherokee e de vários americanos brancos que suportavam os indígenas, eles foram forçados a realizarem a longa e cruel viagem em direção ao Território Indígena em 1838.


Imagem Tex Willer Blog

Centenas de escravos e afro-americanos libertos que viviam com os índios foram obrigados a acompanhá-los nas remoções pela Trilha.
Em 1830, as nações Cherokee, Chickasaw, Choctaw, Creek e Seminole, chamada por alguns de "As Cinco Tribos Civilizadas", viviam com autonomia política e deveriam ser considerados americanos do sul. O processo de "transformação cultural" proposto por George Washington e Henry Knox, já ocorria com muita força, principalmente entre os Cherokees e os Choctaw.


Trilha das Lágrimas, EUA
Representação de nativos das cinco tribos indígenas civilizadas
Imagem wikipedia

Andrew Jackson foi o primeiro presidente americano a de fato implementar uma mudança desse tipo com a aprovação da Lei de 1830, o "Indian Removal Act". Em 1831 a tribo Choctaw inaugurou a remoção e com isso foi criado o modelo aplicado às demais. Depois dos Choctaw foi a vez dos Seminole (1832), dos Creeks (1834), Chickasaw (1837) e finalmente os Cherokee (1838).

Trilha das Lágrimas, EUA
As rotas seguidas pelas tribos durante as remoções
Imagem wikipedia

A nação Choctaw ou Chacta vivia no que atualmente são os estados americanos de Alabama, Mississippi e Lousiana. Depois de uma série de tratados iniciados em 1801, os territórios dos índios estavam reduzidos a 45.000 Km². O Tratado de Dancing Rabbit Creek cedeu à União os antigos territórios selvagens. O Tratado foi ratificado em 1831.
Lewis Cass, Secretário da Guerra, foi indicado por George Gaines para gerenciar a remoção. Gaines decidiu que a remoção se daria em três fases, de 1831 a 1833: A primeira começou em 1 de novembro de 1831 com os grupos sendo reunidos em Memphis e Vicksburg. Inicialmente os índios Choctaws foram transportados em carroções, mas as nevascas do inverno dificultaram esse procedimento. Com a diminuição da comida, os moradores de Vicksburg e Memphis ajudaram e conseguiram cinco barcos a vapor (o Walter Scott, o Brandywine, o Reindeer, o Talma e o Cleopatra). O grupo de Memphis viajou pelo Arkansas por 95 km, entretanto, com a temperatura abaixando e os rios congelando, a viagem parou por semanas e a teve que ser racionada. Quarenta carroções do governo foram enviados à Arkansas Post e levaram os nativos para Little Rock. Foi ao chegar a esse local que o chefe Thomas Harkins ou Nitikechi disse ao jornal Arkansas Gazette que a remoção fora uma "trail of tears and death" (uma trilha de lágrimas e morte).
O grupo de Vicksburg teve um guia incompetente e se perdeu nos pântanos do Lake Providence.
Cerca de 15.000 Choctaws foram para o "Território Indígena". Entre 2.500 e 6.000 índios morreram durante a remoção. De 5.000 a 6.000 Choctaws permaneceram no Mississippi em 1831. Os Choctaws que escolheram ficar foram objeto de intimidação legal e perseguição. Os índios tiveram suas casas derrubadas ou queimadas e o gado debandado.
O filósofo francês Alexis de Tocqueville que testemunhou a remoção Choctaw em Memphis, em 1831, relatou:
Pairava no ar um sentimento de ruína e destruição, o fim dos atraiçoados e um inexorável "adieu"; ninguém poderia assistir aquilo sem sentir um aperto no coração. Os índios estavam quietos, sombrios e taciturnos. A um deles que falava inglês eu perguntei porque os Chactas estavam deixando suas terras. "Para ser livre," o nativo me respondeu. Nós... assistíamos era a expulsão .. de um dos mais famosos e antigos povos americanos.”

Alexis de Tocqueville

A Flórida foi adquirida pelo governo americano após o Tratado de Adams-Onís firmado com os espanhóis, tornando-se uma possessão em 1821. Em 1832 os Seminoles, nativos da região, foram chamados para um encontro em Payne's Landing no Rio Oklawaba, onde seria negociado o tratado da remoção dos índios para o Oeste. Eles deveriam ficar nas reservas Creek.
Os Seminoles pertenceram à tribo Creek originalmente, mas depois se separaram, sendo então considerados desertores pelos Creek. Devido a isso eles não queriam se mudar para o Oeste, pois certamente entrariam em conflito com sua antiga tribo.
A delegação de sete caciques que deveria inspecionar a nova reserva não deixaria a Flórida até outubro de 1832. Depois de percorrer a área e contatar os Creeks, os chefes assinaram o documento em 28 de março de 1833, aceitando as novas terras. Porém, ao retornarem à Flórida, muitos deles negaram o documento, dizendo que não o haviam assinado ou foram forçados a fazê-lo.
Os nativos da área do Rio Apalachicola acabaram sendo persuadidos e se foram para o Oeste em 1834. Em 28 de dezembro de 1835 um grupo de Seminoles e escravos fugidos emboscaram uma companhia do exército americano que tentava forçar a remoção dos Seminoles resistentes. De 110 militares apenas três sobreviveram, o que deu início a Segunda Guerra Seminole.
A Flórida começou a se preparar para a guerra. A milícia de St. Augustine pediu ao Departamento da Guerra 500 mosquetes emprestados e quinhentos voluntários foram reunidos pelo Brigadeiro General Richard K. Call. Os guerreiros índios percorreram fazendas e povoados, obrigando as famílias a fugirem para as cercanias dos fortes, cidades maiores ou saírem do território. O líder guerreiro Osceola atacou um trem de suprimentos, matando oito dos guardas da milícia e ferindo seis outros. A maior parte dos suprimentos foi recuperada pela milícia após uma luta, dias depois. Plantações de cana na costa sul do Atlântico, em St. Augustine foram destruídas e os escravos se juntaram aos Seminoles.
Os líderes guerreiros Halleck Tustenuggee, Jumper e os Seminoles negros Abraham e John Horse prolongaram a resistência nativa e enfrentaram o exército. A guerra terminou dez anos depois de iniciada, em 1842. O governo americano estimou ter gastado 20.000.000 de dólares com o conflito, uma soma astronômica para a época. Muitos índios foram forçados ao exílio para as terras Creek, ao Oeste do Mississippi; outros ficaram isolados nos Everglades. No fim, o governo desistiu de perseguir os cerca de 100 Seminoles que ficaram nos Everglades, deixando-os em paz.
Depois da Guerra de 1812, alguns líderes Muscogee como William Mclntosh assinaram tratados que cediam terras na Geórgia. Em 1814, com o Tratado do Fort Jackson, a Nação Creek seria dividida em facções, bem como todas as tribos do Sul.
Líderes Creeks amigáveis aos colonos americanos tais como Selocta o Grande Guerreiro, apelaram pela manutenção da paz ao presidente Andrew Jackson. Jackson endureceu as negociações com os resistentes e ignorou partes do Tratado de Ghent que beneficiavam as nações indígenas.
Em 12 de fevereiro de 1825, contrariando muitos nativos, McIntosh e outros chefes assinaram o Tratado de Indian Springs, que cedeu a maioria das terras Creek remanescentes na Georgia. Após o Senado americano ratificar o tratado, McIntosh foi assassinado em 13 de maio de 1825, por Menawa, um líder Creek.
O conselho Creek, liderado por Opothle Yohola, protestou junto ao governo americano, chamando o tratado de fraudulento. O presidente John Quincy Adams concordou em tornar nulo o tratado e um novo acordo foi assinado, o Tratado de Washington, em 1826.
Entretanto, o governador Troup da Georgia ignorou o novo documento e começou a pressionar os índios para que deixassem as terras. De início, o presidente Adams interveio com tropas federais, mas o governador chamou a milícia. Adams, temendo uma guerra civil, cedeu.
Forçados a sair da Georgia, os Creeks foram para o território Indígena. Cerca de 20.000 nativos dessa tribo permaneciam no Alabama. Então houve uma mudança da lei que obrigava os índios a se submeterem as regras do estado. Opothle Yohola apelou ao presidente Andrew Jackson por proteção no estado, sem sucesso. Então foi assinado o Tratado de Cusseta em 24 de março de 1832, que dividiu as terras Creek em assentamentos individuais. Com o tratado os Creeks poderiam vender seus assentamentos e conseguir dinheiro, inclusive para se mudarem para o Oeste. Especuladores de terras e aproveitadores começaram a expulsar os índios e a violência levou a chamada "Guerra Creek de 1836". O Secretário da Guerra Lewis Cass enviou o general Winfield Scott para colocar termo ao conflito e forçar a remoção dos índios para o Território Indígena ao Oeste do Rio Mississippi.
A partir da década de 1850, com toda a região dos 48 Estados contíguos nas mãos dos Estados Unidos, o governo federal passou a mover forçadamente tribos nativas americanas para pequenas reservas indígenas. No final da década de 1880, todas as tribos do país estavam confinadas dentro de reservas indígenas.