08 julho 2013

Oratórios Coloniais no Rio de Janeiro

Aproveitando o clima da Jornada Mundial da Juventude, que trás ao Rio de Janeiro exposições de artes sagras importantíssimas, inclusive uma com oratórios do Museu do Oratório, de Ouro Preto, vou falar sobre dois importantes oratórios barrocos que podem ser vistos na cidade: Um à Nossa Senhora do Cabo da Boa Esperança, na Rua do Carmo e outro no Mosteiro de Santo Antônio, no Largo da Carioca.
Quando da chegada da família real, em 1808, a cidade do Rio de Janeiro possuía quase uma centena de oratórios. Nichos com imagens que além de congregarem os fiei para oração nas primeiras horas da noite, também serviam de local onde as pessoas se socializavam. Como tinham sempre um candeeiro aceso, iluminavam as ruas antes da instalação dos lampiões públicos - o que só ocorreria em 1854.
Infelizmente não é fácil encontrar registros de todos esses oratórios. Sabe-se dos que ficaram notáveis por uma ou outra razão. Havia um em veneração à sagrada família que, por ter uma imagem representando-a quando da fuga de Herodes, deu à via o nome de Rua do Egito. Logradouro que, após 1723, passou a chamar-se Rua da Carioca, quando se converteu em acesso ao chafariz do Largo da Carioca.
Outro que se pode citar ficava na entrada do Arco do Teles, na Praça VX e era dedicado à Nossa Senhora dos Prazeres. Este Arco foi, por muito tempo, local de mendigos, vagabundos e prostitutas e, devido a acontecimentos escandalosos presenciados pela imagem, um morador revoltado com a profanação, removeu a santa imagem para a Igreja de Santo Antonio dos Pobres, onde está até hoje. O oratório foi demolido.
E falando dos velhos oratórios, não posso deixar de comentar sobre um do final do século 17 que durou mais de cem anos em frente à Praia do Peixe, nos fundos da Igreja Santa Cruz dos Militares, na Rua do Ouvidor.
Nesse local, um grupo de mercadores, negociante estabelecidos, abriu um nicho e nele colocaram as imagens do Menino Deus e de Nossa Senhora da Lapa. Seja pela força da imagem ou proteção da Virgem, os negócios prosperaram muito, o que levou a erguerem a Igreja da Lapa dos Mercadores.

Igreja da Lapa dos Mercadores, Rio de Janeiro, Igreja, Cruzando Mundo
Igreja da Lapa dos Mercadores

  
Atualmente resistem apenas dois desses oratórios em seus locais de origem.
Um deles, construído em 1763 pelo mestre Manoel Alves Setúbal, para a Ordem Terceira do Carmo, é dedicado à Nossa Senhora do Cabo da Boa Esperança e está na Rua do Carmo nº 38, nos fundos da Igreja da Ordem Terceira do Carmo.

Oratório a Nossa Sra do Cabo da Boa Esperança
O oratório como era originalmente

Ainda que tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), está abandonado e coberto por tapumes há quase duas décadas.

Oratório de 1763, Nossa Sra do Cabo da Boa Esperança
Oratório de 1763, dedicado a Nossa Sra do Cabo da Boa Esperança
Rua do Carmo, 38

Em estilo barroco, o oratório é um marco cultural e arquitetônico da cidade. As pedras gnaisse são brasileiras, os azulejos e mármores, portugueses e o portão de ferro é do século 18.

Oratório de 1763, dedicado a Nossa Sra do Cabo da Boa Esperança
Oratório de 1763, dedicado a Nossa Sra do Cabo da Boa Esperança

A imagem veio de um oratório que existiu no Morro do Castelo.
Em uma das paredes existia uma abertura onde havia uma caixinha na qual os marinheiros portugueses, que seguiam para o oriente, nas vésperas da partida deixavam oferendas ao pedir proteção à Virgem para a travessia do sul da África. No regresso agradeciam, à Virgem, o bom êxito da viagem.


Oratório de 1763, dedicado a Nossa Sra do Cabo da Boa Esperança

Essa é uma relíquia que remonta às grandes navegações e a imagem original, que é maravilhosa, se encontra na sacristia da Igreja da Ordem Terceira do Carmo, na Rua Primeiro de Março.
Aproveito para transcrever um trecho do livro de Vivaldo Coaracy, “Memórias da Cidade do Rio de Janeiro”, edição de 1988, pág. 238.
Antes porém, de encerrar essas breves notas sobre a Igreja do Carmo não é permitido deixar de mencionar o oratório que se vê sobre o portão da passagem das duas Igrejas, na Rua do Carmo.
Muita gente passa por ali sem o ver, sem mesmo saber que existe.
É, entretanto, uma das preciosas relíquia da cidade. Consagrado a Nossa Senhora da Boa Esperança, é o último dos oratórios que, na velha cidade colonial, congregava, às primeiras horas da noite, em certos dias da semana, um grupo de fiéis para rezar o terço ou a ladainha.
As lâmpadas que a devoção mantinha acesas todas as noites nesses oratórios constituíram por muitos anos a única iluminação das antigas ruas. Pouco a pouco, com a simultânea chegada do progresso e declínio da devoção, os oratórios foram desaparecendo um após o outro. Hoje resta um só: aquele que se vê na Rua do Carmo."

Oratório a Nossa Sra do Cabo da Boa Esperança, Rua do Carmo

É bem verdade que ele andou um pouco... Transferido em 1812 para a esquina seguinte, onde hoje se abre a Rua Sete de Setembro, retornando ao local de origem em 1924.
Em 1948 foi erguido ao seu lado um prédio de escritórios, onde, como se fosse uma sina local, estão ali sediadas a Associação Nacional de Transportadores de Turismo, a Associação Brasileira de Jornalistas Especializados em Turismo, A Turistrade e a Marc Apoio Consultoria e Treinamento em Turismo.
Isso é que é um oratório com tradição em viagens!!!
É muito triste um patrimônio riquíssimo como esse está em estado de abandono e as pessoas privadas de admirá-lo.
O outro, em bom estado de conservação, pode ser visto na entrada do Mosteiro de Santo Antônio, no Largo da Carioca.
Há, ainda, o repositório em madeira com a imagem que ficava no oratório na Rua do Ouvidor, origem da Irmandade e da Igreja da Lapa dos Mercadores. A relíquia é guardada na Sacristia e mostrada em ocasiões especiais. 

Imagem que ficava no oratório da Rua do Ouvidor, atualmente guardada
no Mosteiro de Santo Antonio